Aprender e Ensinar

Aprender e Ensinar

Olá pessoal! O post de hoje será um pouco diferente dos que estão acostumados a ler. Não vou dar nenhuma dica de italiano, mas falar com vocês em um modo mais direto sobre a minha experiência linguística, após quase 15 anos vivendo no exterior. Gostaria também de conhecê-los melhor, saber quantos de vocês são professores, quantos ensinam italiano ou outra língua estrangeira, e que métodos adotam.

Como muitos de vocês sabem, sou carioca, professora de português, italiano e tradutora. Em 2000, me formei em Letras (português – italiano) pela UFRJ e, pouco tempo depois – já no mestrado que não pude concluir por razões óbvias -, conheci meu atual marido (que é italiano), motivo pelo qual me encontro fora do meu país há tantos anos. Mesmo tendo um conhecimento profundo da minha língua materna, ou seja, do português, não foram poucas as vezes – depois de algum tempo vivendo na Itália – que me senti insegura na hora de escrever e de usar alguns termos e estruturas em meio a um discurso. Muitos podem até achar que isso não seja possível, que não podemos esquecer a língua que falamos desde que nascemos, e realmente não é. Contudo, o cérebro humano é uma caixinha misteriosa no que diz respeito à aquisição de línguas estrangeiras, sobretudo para nós adultos, com a cabeça cheia de informações de todo o tipo, além das preocupações quotidianas. Afinal, o que acontece com a nossa língua materna quando somos imersos em outra realidade linguística? Lembro que quando trabalhei como leitora de língua portuguesa na Università degli Studi di Bari – depois de quase dois anos morando na Itália e falando mais italiano do que português -, me senti extremamente insegura nas primeiras semanas, achava que não iria conseguir ensinar bem, que tinha que estudar muito. E tinha mesmo! Sem dizer que fui solicitada a ensinar o português europeu, que (apesar de serem línguas mais do que irmãs) me colocou em uma saia justíssima. Contudo, foi um período de grande aprendizagem para mim, além das amizades maravilhosas que fiz e que cultivo até hoje.

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Antes de tudo, não estou fazendo uma reflexão baseada em nenhuma teoria, mas na minha própria experiência e nas medidas que adotei para continuar “afiada” seja na minha língua materna seja nas estrangeiras que aprendi e continuo aprendendo, cuja última da fila é o alemão, famoso por sua sintaxe às avessas e suas declinações. Vocês devem estar se perguntando se existe alguma fórmula mágica para tal empreitada, não é mesmo? Talvez já tenham até entendido. Existe sim: estudar e ensinar. Estudar para não esquecer, ensinar para aprender. Mas nem todos são professores, certo? O que fazer nesses casos? Sem querer ser banal ou chata, diria que para aprender bem uma língua estrangeira, temos que dominar a nossa. Isso mesmo, pois dominar não é sinônimo de falar. Afinal, todos falam. Mas será que todos sabem articular bem um texto e um discurso em modo coerente e coeso? Nas aulas de alemão, considerando que no nosso grupo nem todas nós (somos todas mulheres!) temos o mesmo nível de instrução, me dou conta que as pessoas que mais têm dificuldade de aprender são as que  não dominam a própria língua materna. Não são raros os casos de estrangeiros que falam somente o dialeto da região de origem.

Então, para não perder o fio da meada, a solução que encontrei foi continuar aprendendo e ensinando, principalmente, a minha língua materna, para poder aprofundar os meus conhecimentos da língua italiana, inglesa e, claro, alemã. No fundo ensinar e aprender são quase sinônimos, se encararmos o ato de ensinar como o desembocar de um processo de estudos e pesquisas que o antecede. É como um córrego que vira riacho, que vira rio e desemboca no mar. Quem é professor sabe que, no momento em que preparamos uma aula, estamos aprendendo e consolidando os nossos conhecimentos, as nossas leituras, as nossas vivências. Ensinar é também um ato de amor, de desprendimento, de doação. Tive uma professora de literatura portuguesa fantástica, no primeiro ano de universidade, que nos dizia sempre: “eu amo tanto dar aulas, que não deveria ser paga, sei lá fica parecendo prostituição”. Não precisa dizer que todos nós ríamos até não poder mais. E, ironicamente, é uma das classes mais mal pagas do país.

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Por que escrevo tudo isso? Simplesmente porque quero compartilhar com vocês os projetos aos quais me estou dedicando no momento, além do Dicas de italiano. Quero muito que vocês participem dando opinião, ideias, falando da experiencia de sala de aula (os que são professores), etc. Logo, tenho o prazer de lhes apresentar o Affresco Italiano, dedicado também à tradução e ao ensino do italiano para brasileiros. A decisão de gerenciar dois blogs tem uma única razão: um será dedicado ao público europeu e o outro ao público brasileiro. Ainda tem muita coisa para ser feita, digamos que estão em fase de construção. Na realidade, quando eu sento aqui para escrever posts dedicados ao ensino do português ou do italiano (e futuramente do alemão), quem está aprendendo sou eu, muito mais do que possam imaginar, muito mais do que vocês. Obrigada por tudo, por não me deixarem esquecer, sobretudo, a minha língua materna.

Um grande e carinhoso abraço!

Cláudia Lopes

Cláudia

Cláudia Lopes

Claudia Lopes é formada em letras pela UFRJ (português – italiano). Morou 8 anos na Itália, lecionou português na Università degli Studi di Bari; fala inglês fluentemente e estuda alemão. Mantém atualmente o site Affresco Italiano.

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